30 junho, 2017

DA SÉRIA SÉRIE "FILMES QUE JAIR BESTEIRARO ET CATERVA A-DO-RA-RI-AM..." (LX)

Pronto, deu-se a melódia com uma decisão do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella – é, aquele bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.
Informa-nos o blog de Paulo Lopes:

O prefeito Marcelo Crivella (PRB), na foto, anunciou corte de 50% da verba prevista para o desfile do Carnaval de 2018.
Ele deu a desculpa de que as creches precisam de dinheiro.
Como pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Crivella acha que o Carnaval é uma festa do Satanás, de luxúria e de homossexuais.
Ele não enxerga o Carnaval como o negócio que beneficia a indústria do turismo e o comércio, garantindo, inclusive, o emprego de muita gente. E gera pagamento de impostos, ou seja, recursos para criação e manutenção de creches.
Bem feito para a maioria dos eleitores do Rio, os quais deveriam ao menos desconfiar sobre os malefícios de se eleger um fanático religioso.
Como tudo, a burrice tem consequências.

Dois pontos, abre aspas: que p... é essa?
Saiu n' O Globo de 12 de junho de 2017 (os grifos são meus):

RIO - O prefeito Marcelo Crivella disse, nesta segunda-feira, que planeja cortar pela metade a subvenção concedida às escolas de samba do Grupo Especial a partir do carnaval de 2018. Os recursos das escolas seriam remanejados para dobrar as diárias pagas por criança às creches privadas conveniadas com a prefeitura. A decisão foi comunicada ao presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Jorge Luiz Castanheira, na semana passada. Castanheira discorda da decisão e pediu uma reunião do prefeito com os presidentes das escolas. A reunião estava inicialmente marcada para esta tarde, mas foi cancelada por problemas de agenda de Crivella.
Nos dois últimos anos (2016-2017), cada escola do Grupo Especial recebeu R$ 2 milhões da prefeitura. Com o corte, esse valor passaria para R$ 1 milhão por agremiação, que corresponde ao que cada escola recebeu há dez anos, em 2008. O prefeito argumentou que precisa dos recursos, e que o corte não iria interferir tanto no evento se os sambistas forem valorizados. Castanheira, por sua vez, diz que o investimento da prefeitura no carnaval gera receitas para a cidade que compensam o gasto:
— Eu propus à Liesa um corte de 50%. A beleza do carnaval carioca está mais no samba no pé mostrado pelos componentes. Juntas, as pessoas formam uma grande geografia humana. Carnaval é muito mais que carros alegóricos. Estamos com restrições orçamentárias, quero usar esses recursos a partir de agosto para pagar uma diária de R$ 20 para atender 3 mil crianças. Hoje, essas creches recebem R$ 10. É pouco, até mesmo para comprar um iogurte. É uma questão de refletir. Se vamos usar esses recursos para uma festa de três dias (o carnaval) ou ao longo de 365 dias do ano — alegou o prefeito.
Jorge Luiz Castanheira rebateu Crivella. Ele argumentou que durante a campanha eleitoral o prefeito prometeu exatamente o oposto. Investir para valorizar o carnaval da cidade:
— O espetáculo chegou a um alto nível de qualidade. Isso seria um retrocesso. Aumentar verbas para a creche, de fato, é importante. Mas é tratar da questão do carnaval do Rio de uma maneira muito simplista. O evento movimenta R$ 3 bilhões para a cidade, conforme a própria Riotur já divulgou. É toda uma economia que gira em volta disso. Movimenta hotéis, restaurantes, entre outras atividades econômicas que geram impostos para a própria prefeitura — argumentou Castanheira.
Os cortes atingiriam também as subvenções dos grupos de acesso, mas em percentagem menor. Para Crivella, se por um lado as escolas perderiam recursos, por outro, investimentos seriam feitos na Sapucaí para melhorar as condições de infraestrutura oferecida para às escolas. Os recursos viriam do Fundo de Turismo. A ideia seria usar as verbas para modernizar o sistema de som da Sapucaí, bem como instalar telões já para 2018, apesar de o edital de licitação ainda não ter sido lançado.
Segundo ele, o Conselho de Turismo poderia também ser usado para complementar os subsídios das escolas. A indefinição do carnaval do Rio, no entanto, já causou baixas no conselho. Como a coluna "Gente Boa" informou no sábado, o empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, deixou o conselhohttp://blogs.oglobo.globo.com/gente-boa/post/boni-deixa-conselho-de-turismo-da-prefeitura-nao-volto-atras.html, insatisfeito com indefinições na prefeitura.
Sobre a saída de Boni, Crivella disse que vai conversar com ele para tentar convencê-lo a ficar:
— Eu estou pedindo a ele que não saia. Gostaria muito que ele estivesse conosco. A saída do Boni se deu devido aos recursos para o carnaval. Precisamos entender que estamos em crise. Para vocês terem uma ideia, hoje às 7h eu estava reunido com as creches conveniadas da prefeitura. São 12 mil crianças que hoje estão em creches conveniadas. O Rio de Janeiro paga per capita R$ 10 para cada criança. Pergunte à população do Rio. Não é pouco? Então é preciso aumentar pelo menos para R$ 20. Agora façam as contas. Isso tudo exige de nós austeridade e sacrifício. Todos precisam contribuir. Nós cortamos secretarias, nós cortamos mais de mil cargos políticos. O carnaval precisa contribuir conosco, nos ajudar nesse esforço. Nós não podemos deixar essas pessoas com R$ 10 per capita por dia.

A decisão rendeu uma decisão da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba), publicada n' O Globo do dia seguinte) (e mais uma vez, o grifo é meu):

Pelo menos cinco das 13 escolas de samba do Grupo Especial do Rio — União da Ilha, Mocidade, São Clemente, Mangueira e Unidos da Tijuca — ameaçam ficar longe da Marquês de Sapucaí em 2018 caso o prefeito Marcelo Crivella de fato corte à metade a subvenção distribuída às agremiações. Crivella disse ontem que vai tirar o dinheiro do carnaval para dobrar (de R$ 10 para R$ 20) o valor diário gasto com cada uma das 12 mil crianças matriculadas em 158 creches conveniadas com o município.

Claro, o debate ferveu. Quem ficou a favor da decisão do prefeito apoia a redistribuição de verbas para a área social. Quem é contra (inclusive a LIESA e o setor do turismo) lembram que o investimento da prefeitura no carnaval incrementa a economia do Rio. Segundo cálculos da própria Riotur (órgão da própria prefeitura), o carnaval movimenta R$ 3 bilhões no período, aumentando a arrecadação de impostos, fora os empregos.
Tudo bem, que continuem debatendo. Se bem que, ao nosso ver, a posição da LIESA (que apoiou Crivella no segundo turno em 2016, com medo do "radical" Marcelo Freixo) esteja enfraquecida, pelo contraste entre o luxo de um desfile de escolas de samba e os problemas sociais da cidade; pela opção recente de diversas escolas em enredos patrocinados que bajulam seus patrocinadores – tipo assim, um enredo de certa escola, em 2015, que homenageou uma ditadura-cleptocracia africana e, sobretudo, a verdadeira caixa preta que são as contas da própria LIESA.
E, além do mais... bem, carnaval não é só no Sambódromo. Também se brinca na rua, com os blocos de carnaval, certo? E o carnaval de rua é até melhor e mais animado que o do Sambódromo, correto?
Bem, em condições normais de temperatura e pressão, não haveria a menor dúvida. Já na prefeitura Crivella, não acho que se possa dizer o mesmo.
Porque, enquanto todos prestam atenção no pau que está comendo entre Crivella e a LIESA, o povo ignora outra decisão do prefeito – e essa sim, ameaça mais o carnaval (o carnaval de rua, que é carnaval de verdade) do que qualquer corte de verbas: um decreto que subordina a autorização de festas e eventos de rua no Rio de Janeiro ao gabinete do Executivo. (Quem quiser mais informações, ouça  esta entrevista de um dos vereadores que tenta barrar este absurdo, TarcísioMotta, do PSOL (isso mesmo, um dos radicalóides de quem você, eleitor, fugiu ao votar em Crivella...) para a CBN.)  

Aí, você pergunta: o que deu na cabeça do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, em ser tão refratário ao carnaval? Não custa nada lembrar que, já no carnaval deste ano, ele não foi à cerimônia de entrega da chave da cidade ao Rei Momo, que abre o carnaval. Segundo "aceçores" (assim mesmo, sr. revisor, obrigado), "o prefeito não veio porque sua mulher está muito doente, com uma gripe muito forte". (Ou a recuperação da sra. Crivella foi milagrosa, ou não devia ser uma gripe muito forte, porque, na manhã seguinte, Crivella e sua esposa foram vistos na abertura de um torneio de tênis...)
Simples, caro leitor. Não é o prefeito Marcelo Crivella que tem alergia ao carnaval. É o bispo da Igreja Universal Marcelo Crivella (sobrinho do seu líder máximo, o bispo Edir Macedo) seguindo os ditames desta igreja no que se refere ao carnaval enquanto prefeito do Rio de Janeiro.
Porque a Igreja Universal do Reino de Deus ABOMINA o carnaval, que considera como "coisa do demônio" – CQD dois textos do site da Igreja, que transcrevo abaixo. (Se concordar com eles, pode sair deste blog.)
Primeiro, este aqui:

Estamos vivendo a maior festa popular do nosso País. Os olhos do mundo inteiro se voltam para o brilho intenso da grande folia promovida nas cidades brasileiras: o Carnaval. Nesse período, sites, jornais, revistas e noticiários estão repletos de exemplos de pessoas que fazem de tudo para estar impecável para a festa. São homens e mulheres capazes de privar-se por longos dias de uma alimentação adequada, se entregando às famosas dietas, às vezes, malucas. Sem falar daquelas pessoas que fazem cirurgias plásticas para colocar e tirar o que não lhes agrada. Todo sacrifício é feito para que o corpo esteja perfeito para ser exibido.
Outros não podem investir tanto na aparência física, mas usam todo o salário e toda economia de um ano inteiro para garantir a fantasia ou o abadá – o passaporte para a suposta folia. Há até quem chegue a ponto de se endividar, pois não quer ficar de fora de um evento mostrado pela mídia como um dos mais importantes do ano.
Enfim, existem muitos outros sacrifícios feitos em busca de um prazer que dura poucos dias. Porém, o que pouco se comenta são os excessos e as extravagâncias cometidas durante a festa. A verdadeira face do Carnaval.
Começa com um peso enorme na saúde pública, pois é necessária a intervenção do governo na conscientização e distribuição de preservativos em massa. Todos sabem que as pessoas deixarão que seus desejos aflorem de tal maneira que farão sexo sem nenhum critério.
Muitos homens e mulheres serão contaminados por doenças sexualmente transmissíveis. Jovens perderão a virgindade sem ao menos conhecer o parceiro. Na tentativa de ajudar, o governo disponibiliza também a chamada “pílula do dia seguinte”, como forma de prevenção a gravidez indesejada.
Mesmo assim, não são poucos os casos de mulheres que, após o Carnaval, sujeitam-se às clínicas de aborto clandestinas e arriscam suas vidas.
Resta aos que nascem como consequência dessa orgia sem planejamento e amor terem seus destinos marcados por traumas e rejeição. A verdade é que o mundo da marginalidade e os presídios são povoados pelos filhos do Carnaval.
Soma-se a tudo isso os que terão seu primeiro contato com as drogas, como lança-perfume, maconha, anfetaminas, etc. Eles associam as drogas ao álcool para conseguir pular freneticamente dia e noite, sem parar. A partir daí, será dado um mergulho inevitável na escuridão dos vícios, que vai trazer sofrimento tanto para a própria pessoa como também para os seus familiares.
Enfim, diante das situações acima – cujas consequências talvez você já tenha sentido na pele –, acredito que você não irá mais “comprar” a ideia da mídia, a qual diz que o Carnaval é uma festa inocente, realizada apenas para que as pessoas se divirtam. Porque, certamente, quando a folia acaba, os danos físicos, psicológicos e espirituais permanecem por muito tempo e, em alguns casos, são irreversíveis. Cuidado, nem tudo que reluz é ouro.

E agora, este outro, mais alarmista:

A palavra “Carnaval” tem a sua origem no latim, uma língua antiga. É a junção das palavras “carne" e "vale”, que significa “adeus à carne”, em tradução livre. Essa expressão surgiu porque as pessoas, no passado, aproveitavam ao máximo os prazeres da carne antes que chegasse a quarta-feira de cinzas.
Portanto, pense por 1 minuto: uma festa que surgiu da ideia de se entregar aos prazeres da carne, antes que o tempo termine, pode agradar a Deus?
Por isso é muito comum nesse período do ano acontecerem muitos acidentes de carro, provocados por motoristas embriagados. Além disso, há uma grande valorização da sexualidade e das traições amorosas.
Muitas pessoas se perdem em vícios e consomem grandes quantidades de drogas. Também ocorrem discussões e brigas das quais nem sempre os envolvidos sabem, sequer, o motivo pelo qual começaram.
As pessoas estão entregues ao presente, dizem que “o amanhã pertence a Deus” e querem “viver o momento” de maneira intensa. É o período em que “tudo é permitido”. Vivem pelas emoções e se envolvem em sentimentos.
Contudo, como o desejo do espírito é oposto ao desejo da carne, consequentemente esses prazeres não agradam ao Espírito de Deus.
Como está escrito na Bíblia: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer.” Gálatas 5.17
Essas pessoas desconhecem o perigo que estão desafiando. Elas fazem coisas que agradam aos espíritos malignos e negam a vontade de Deus – ou seja, estão expondo a própria alma ao inferno.
E se o “amanhã” não existir?
E se a sua vida terminar no momento em que você estiver com as pessoas na rua aproveitando “os valores da carne”? Qual será o destino da sua alma? Será que você será salvo pelo Senhor Jesus?
Portanto, cuidado com o caminho que você escolhe para a sua vida: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar.” 1 Pedro 5.8
Durante o período do Carnaval, participe das reuniões na Universal. Não dê oportunidade para que os espíritos malignos lhe “devorem”. Busque a presença de Deus. Veja o endereço mais próximo e convide os seus familiares e amigos para participarem com você.

E, de preferência, contribua com o dízimo, para "ajudar" a IURD, não é mesmo?
(A propósito: um amigo meu, que é a franqueza em pessoa, até hoje se pergunta por que Edir Macedo tem ojeriza ao carnaval. "Será que ele brincou o carnaval alguma vez e foi estuprado por um bando de clóvis?", pergunta este meu amigo, na base do deboche... Quem souber...)
Mas... esperem um pouco: enquanto candidato, Crivella jurou de pés juntos que iria governar a cidade para todos, sem obedecer a ditames religiosos? Está aqui nesta entrevista a O Globo:

A Igreja Universal participa da campanha?
Não. A Igreja Universal não participa da campanha. E não vai participar do meu governo. Há uma dúvida entre os meus eleitores. Isso já fez minha rejeição ser estratosférica. Não participa da minha campanha e não participará do meu governo.
(...)
O senhor manteria a coordenadoria de Diversidade Sexual?
Claro, sabe o que eu mais quero? É mostrar que eu sou candidato a prefeito. E não candidato a preconceito.

(Para registro: a Coordenadoria de Diversidade Sexual foi realocada sob as asas do gabinete do prefeito... com menos recursos.)
a
O senhor acredita que um casal de homossexual possa constituir uma família e adotar um filho?
Isso aí já está consagrado na lei. Não há o que se discutir. Se morrer um deles, vai ter direito a pensão, tudo de acordo com a lei.
Há uma bancada no Congresso que trabalha por recuos de direitos de minorias...
Veja bem, se até Deus respeitou o livre arbítrio, imagine se eu não vou respeitar. As bancadas católica e evangélica são, de uma maneira geral, em defesa da vida. São incondicionais, também, contrárias à legalização das drogas e em defesa da família.

Sim, Marcelo Crivella disse isso: que governaria a cidade do Rio de Janeiro para todos, independente de religião ou falta dela, e que respeitaria o Estado laico.
E daí? Muito "político" (assim mesmo, sr. revisor, entre aspas, obrigado) em campanha eleitoral, costuma prometer que, se for eleito, colocará "chope no chafariz" – isto é, promete coisas que sabe que nunca irá cumprir para se eleger.
É mais ou menos o que acontece no texto "crássico" (assim mesmo, sr. revisor, obrigado) de Juó Bananére, Non fui ista a inrevoluço que io sugné – com a diferença que é o próprio Bananére que queria isso:

Banquetos popularo cô leitó azado, pirú co´a farofa, tutú di feijó co´a linguicia i macarone co´a pomarola in goffa
in tudas praça prú Zé Povo amangiare inté aribentá, tutto di mezza cara.
Nas bomba di gasiolina, inveise di gasiolina tenia un chopps duplo i un vigno griolino prá genti abibê, ventis litro cada veise pur conta dú governo
(Banquetes populares com leitão assado, peru com farofa, tutu de feijão com lingüiça, e macarrão com tomate em caldo em todas praças para o Zé Povo comer até arrebentar, tudo de graça.
Nas bombas de gasolina, em vez de gasolina, teria uns chopes duplos e um vinho “greolino” para a gente beber; vinte litros de cada vez por conta do governo.)

E, é claro, não consegue o que sonha:

Cual u quê! nada dissu, aganó a inrevoluó i a genti continua barbieri du messimo jeitigno, araspano as gara dus outro a duzentô a raspada sê toaglia i co sabó de chinza, i a trezentô co´a toaglia i o sabonete du Guatin.
u gambio, tá no buraco ...
dignêro, a genti nó vê maise una nota ... nê di tchinco
comidas ... nô tê... leitô ... nô tê... pirú ... nô tê... no tê nada ... é sopa só i maise nada
chope ... io nó si alembro maise si é sólido, si é líquido
non fui ista a inrevoluçó qui io sugné...
qui inrevoluçó maise vagabonda !
(Qual o quê! Nada disso. Ganhou a revolução e a gente continua barbeiro do mesmo jeitinho, raspando as caras dos outros a duzentos a raspada sem toalha e com sabão cinza, e a trezentos com a toalha e o sabonete do Guatin.
O Câmbio está no buraco.
Dinheiro a gente não vê mais uma nota nem de cinco.
Comidas? Não tem. Leitão? Não tem. Peru? Não tem, não tem nada. É sopa só, e mais nada.
Chope, eu nem lembro mais se é sólido ou líquido.
Não foi esta a revolução com que eu sonhei.
Que revolução mais vagabunda.)

Non fui ista a inrevoluçó que io sugné (juó Bananére)
Com o próprio Juó Bananere (Disco Columbia 22033-B, matriz 381029 - 1931)
Canal Luciano Hortencio (YouTube)

Aliás, carnavalescos, não foi por falta de aviso. podiam ter se poupado desta decepção se, antes de votar, tivessem lido o artigo de Jean Wyllys para CartaCapital, sobre o então bispo-candidato (alguns trechos):

No horário eleitoral, nos debates e nas entrevistas, Marcelo Crivella (PRB-RJ) diz que a ninguém interessa qual é a religião do prefeito — e eu concordo. No PSOL (partido em que sou filiado) há católicos, evangélicos, candomblecistas, macumbeiros, judeus, espíritas e pessoas com as mais variadas crenças, além de ateus e agnósticos.
O problema não é “a religião do prefeito”, que é uma questão do foro íntimo — mas o perigo de eleger um prefeito que queira fazer do Estado uma extensão de sua igreja, para beneficiá-la por meio da máquina pública e impor seus dogmas ao conjunto da população.
Então, a pergunta que a população do Rio de Janeiro deveria se fazer é a seguinte: a relação de Crivella com a Igreja Universal do Reino de Deus é uma questão privada ou pode se tornar um problema público?
(...)
As bancadas do partido de Crivella, do seu aliado Anthony Garotinho e de outras denominações ligadas às igrejas neopentecostais atuam, tanto no Congresso Federal quanto nos estados e nos municípios, como representantes de uma agenda contrária aos direitos das mulheres, da população LGBT e de outras minorias.
Defendem o fim de toda política de prevenção do bullying homofóbico nas escolas, são contra todos os projetos que garantam direitos e combatam a discriminação e expõem, em seus discursos públicos, muito ódio e muita intolerância.
Crivella agora diz que ele não tem preconceito nenhum, que defende o Estado laico e que não permitirá influência de sua igreja no governo. Contudo, sua trajetória pública mostra exatamente o contrário.
Ele gosta de falar da época em que foi “missionário” na África, mas esquece de contar o que ele fazia naquele continente: combatia o catolicismo e as religiões de matriz africana para implantar a igreja de Edir Macedo.
(...)
Crivella tenta esconder quem é, convenientemente assessorado pelo marqueteiro, mas a verdade está em todos os discursos dele nos últimos anos, filmados e disponíveis na internet.
Ele disse que os gays somos produto de um “aborto mal feito” (como é possível alguém falar isso e ser candidato a prefeito da segunda maior metrópole do país?), que as mulheres devem “obedecer” aos homens, que a única família que deve ser reconhecida é a família “tradicional cristã” e outras barbaridades do tipo.
Ele confessou publicamente que entrou na política por decisão da Igreja Universal (aliás, ele disse que, quando a igreja ordena que ele faça algo, ele não discute) e que o objetivo deles é eleger um presidente evangélico que “trabalhe pelas igrejas” e “evangelize todo o mundo”. O plano político da Universal está escrito, aliás, num livro de Edir Macedo intitulado “Plano de poder”.

Ou o site EsquerdaDiário, que elencou boas razões para não votar em Crivella (vão aí alguns deles):

3) Quando Ministro da Pesca no primeiro mandato do governo Dilma (PT) fez parceria entre a Confederação Nacional da Pesca (dirigida pela Força Sindical da qual o presidente se filiou ao PRB) e o Ministério da Pesca, e houve denúncias que o Ministério privilegiava o cadastramento de seus eleitores.
 
4) Crivella denuncia o governo Paes e o PMDB de não priorizarem os serviços públicos da população em detrimento do gasto exorbitante com obras para os megaeventos. Mas até ano passado estava em parceria com o prefeito Eduardo Paes com seu Projeto Cimento Social, que se tornou uma política de urbanização das favelas do governo de Paes e que também recebia verbas do governo Federal de Lula. Este projeto tem diversas denúncias pela péssima qualidade das reformas feitas nas casas, que já apresentam novos problemas. Há denúncias de que as lista de famílias beneficiadas, eram feitas pela Igreja Universal, da qual Crivella é bispo e por setores de seu eleitorado. Claramente um projeto voltado não para resolver o problema de moradia da cidade, mas sim para fazer demagogia com projetos sociais que tem como finalidade angariar votos e para enriquecimento do próprio Crivella.
 
 5) Em 2008, como senador, mandou o Exército para o Morro da Providência no Rio de Janeiro para supervisionar obras do seu Projeto Cimento Social. Militares comandados por um tenente capturaram três moradores e entregaram para serem torturados e mortos por uma facção de traficantes rivais. Este caso gerou grande repercussão e questionamento sobre a permanência das tropas no morro. Além disso, a Justiça Eleitoral julgou o Projeto Cimento Social, afirmando que tinha um conteúdo eleitoral que beneficiava Crivella nas eleições à prefeitura do Rio de Janeiro no mesmo ano. 
(...)
8) No seu programa destas eleições, promete 40 mil vagas nas creches a partir da parceria público privada (PPP), ou seja, defende a privatização da educação que enriquece o bolso dos grandes empresários que lucram ao invés de investir dinheiro público em educação pública de qualidade.

O que nos leva à justificativa do bispo-prefeito para o corte da verba para as escolas de samba, devidamente grifada: dobrar as diárias pagas por criança às creches privadas conveniadas com a prefeitura. (Isso mesmo: nem é nem mesmo para investir na rede própria de creches da prefeitura, mas nas privadas que são conveniadas.)
Ora, uma das obrigações de entidades privadas que fazem convênio com o poder público para prestar serviços (ONGs e creches, inclusive) é prestar contas do uso dos recursos públicos que recebeu. Acontece que um dos problemas finais da gestão de Eduardo Paespalho foi detectado, justamente, neste aspecto pelo Tribunal de Contas do Município (TCM): muitas entidades privadas não prestaram contas, e as que prestaram apresentaram irregularidades (erros de contabilidade, desvios da verba para outros fins que não os destinados etc.). E, por mais que Crivella jure que tenha mudado algumas coisas, duvido e faço pouco que tenha feito alguma auditoria nas contas de muitas destas entidades ou lido os relatórios do TCM (coisa que, aliás, Eduardo Paespalho também não fez).
E pela mesma razão: muitas destas entidades privadas (inclusive creches) pertencem a dois entes que apoiaram Dudu Paespalho e, hoje apoiam Crivella: políticos da base aliada (qualquer base aliada de qualquer governo, inclusive o atual) e, last but not least, igrejas evangelicuzinhas.
Ganha um exemplar do livro Evangelizando a África, de Crivella (o que você vai fazer com ele – a não ser lê-lo – é problema seu...), quem adivinhar o que ganham em troca?
Isso mesmo: influência e dinheiro para retroalimentar esta influência – especialmente para caixa 2 para as próximas eleições.
Isso em termos de "política" (assim mesmo, sr. revisor, entre aspas, obrigado) miúda, do dia a dia.
Porque em termos de estado (é, o estado brasileiro que é laico – ou deveria ser...), significa: a quebra da promessa de respeitar o estado laico e as crenças (ou falta delas) dos outros; e a imposição de ditames e idiossincrasias de uma religião para todos – inclusive sobre os que não são dela.
No caso em questão, significa: atrapalhar ao máximo, impedir ou (talvez) acabar com o carnaval.
Conseguirá o bispo-prefeito tal objetivo?
Bem, se depender de muito carioca, vai ser complicado. Diretamente transcrito da página Jacarepaguá Online, do Facebook, alguém deu o chamado "papo reto" (o milagre... digo, o texto está aqui; o nome do santo não) no assunto corte de verbas para as escolas de samba:

Você é prefeito de todos os cidadãos do Rio e não só da sua religião! Se toca Sr Marcelo Crivela (SIC), o Carnaval é uma festa do calendário mundial que da lucro, gera empregos e traz turistas do mundo todo para nossa cidade.
Deixa de usar as verbas das creches como desculpa, isso é imoral e sem ética pois com o lucro do carnaval o Rio teria muito mais condições de ajudar as creches, as escolas e etc...
Volte atrás enquanto há tempo para não passar mais vexame!

Em suma: para investir em saúde, educação e empregos diretos, não precisa acabar com o carnaval. Basta demitir os comissionados com supersalários que o bispo-prefeito nomeou.
Uma coisa é cortar a subvenção das escolas de samba pela metade. Outra, muito diferente, é impedir o carnaval de rua, dos blocos de rua, que quase não precisam de subvenção pública (e tem blocos que saem mesmo sem subvenção pública) por preceitos (e preconceitos) de sua religião (relembrando: SUA religião, não a dos seis milhões de habitantes desta Mui Leal e Heroica cidade).
Quem não gosta de carnaval, não brinque o carnaval. O que não pode é impedir quem quer brincar o carnaval – ainda mais por preceito religioso (se a Universal diz que "carnaval é coisa do diabo", ela que se dane: Crivella foi eleito prefeito de TODA A CIDADE do Rio de Janeiro, de todos os cariocas - não só dos cariocas fiéis da Universal) e grande possibilidade de maracutaia (beneficiar creches das igrejas evangélicas e de políticos que apoiam o prefeito.)
Até porque, com permissão ou sem permissão das "otoridades", com pandeiro ou sem pandeiro, o carioca sempre brinca o carnaval – CQD o magnífico desfile inaugural do bloco Não muda Nem Sai de Cima, descrito com brilhantismo na crônica Se mudar, estraga, de Aldir Blanc (do livro Um cara bacana na 19ª – Rio de Janeiro, Record, 1996), de onde selecionamos trechos importantes ao qual o bispo-prefeito deveria prestar muita atenção, se não quiser se machucar... (o grifo, maus uma vez, é meu.)

Sábado, 3 de fevereiro de 96, desfilou pela primeira vez o Não Muda nem Sai de Cima, um bloco organizado pelas incríveis mulheres da Garibaldi, rua onde moro. Os maridos andavam ocupadíssimos bebendo todas, e elas, por distração, fundaram um bloco carnavalesco. E que bloco!
Desde o primeiro desfile do Simpatia-É-Quase-Amor, nome tirado de um humilde personagem meu, a emoção não batia tão forte. O abre-alas era de matar. As moças foram na Praça Xavier de Brito e acertaram uma graninha com o pessoal das charretes. A simplicidade gerou uma abertura deslumbrante: várias charretes e um forde-bigode apinhados de crianças no meio do maior toró, a bateria em luta corporal com a chuva, uma euforia inacreditável, Sergio Touro dando decisão em patrulhinha e sugerindo inúmeros locais onde os agentes da lei e da ordem deveriam enfiar escopetas, dragas, algemas, cassetetes, espetacular repertório de orifícios e reentrâncias capaz de abrigar um arsenal.
(...)
Nota 10. Um dia depois da morte de Gene Kelly, o Não Muda nem Sai de Cima passou cantando na chuva – e meu coração se deixou levar...

Para bom entendedor, bispo Crivella: passarinho que come pedra...
Até porque, bispo Crivella, se o carnaval para a sua igreja é algo abominável, para o carioca é "o acontecimento religioso da raça" (© Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald de Andrade) – e acontecimentos religiosos deste naipe devem ser respeitados tanto quanto às "Marchas para Jesus".
E, se a sua promessa, bispo Crivella, é cuidar das pessoas, lembre-se que o dom festeiro do carioca faz tanto bem quanto orações e medicamentos. Afinal (Oswald de Andrade, de novo...), "a alegria é a prova dos nove".

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Agora, só uma pergunta: o que será que botam (de bom) na água potável da Lituânia? Porque a nossa indicação para esta séria série é o segundo filme produzido lá com temática de meninas que amam meninas (o primeiro foi Sangailė ou The Summer Of Sangaile, de Alanté Kavaïté): Filme: Anarchy Girls (Anarchija Zirmunuose - 2010), roteiro e direção de Saulius Drunga.
A história é simples: Vile (Toma Vaskeviciute), estudante de medicina vinda do interior, conhece Sandra (Severija Janusauskaite), uma anarquista lésbica, numa reunião de um grupo anarquista nos subúrbios de Vilnius (a capital lituana). As duas se sentem inexplicavelmente atraídas uma pela outra e...
Bem, peça ao distribuidor que traga o filme para Terra Papagalli para saber o resto da história.
Por ora, fiquem com o trailer.




DA SÉRIA SÉRIE "FILMES QUE JAIR BESTEIRARO ET CATERVA A-DO-RA-RI-AM..." (LIX)

Meritíssimo juiz Christopher Alexander Roisin, da 11ª Vara Cível de São Paulo:

Venho escrever esta mensagem a Vossa Excelência para lhe lembrar uma coisa que ser-lhe-á (copyright da mesóclise Jânio Quadros...) muito importante para a sua carreira no Poder Judiciário: o Corpus Juris Civilis foi compilado pelos romanos para que coisas venham a ser decididas pelo arcabouço do Direito, não pelo preconceito pessoal.
Acho que posso falar disso, no caso em pauta, com alguma neutralidade, porque, se Vossa Excelência me permite a vênia, não vou muito com os cornos da escritora e roteirista Fernanda Young. E já era mais do que previsível que essa ilustre senhora enfrentaria um arranca rabo em um tribunal, seja como querelada – isto é, alguém iria processá-la – seja como querelante – isto é, ela iria processar alguém como no caso que o Meritíssimo julgou recentemente. Isto porque, com sua habilidade (SIC) habitual de falar as coisas antes de pensar, ela deve ter conseguido a façanha de arrumar desafetos a quilo.
Só para que Vossa Excelência possa fazer uma ideia, gostaria de lembrar (e lembro-me muito bem) de uma edição do programa Saia Justa, do canal GNT, em 2003. Na época, Fernanda Young fazia parte do time de comentaristas do programa, ao lado de Monica Waldvogel, Marisa Orth e Rita Lee. A certa altura, passou-se a falar da invasão do Iraque por George W. Bush (George W. Busha de Canhão, para os íntimos das indústrias de petróleo e de armas norte americana...), sob pretexto de existência de armas de destruição em massa que o ditador do Iraque Saddam Hussein teria escondidas (quando, na verdade, não tinha nem sequer um traque de São João, depois das guerras Iraque-Irã, nos anos 1980, e da guerra do Golfo, em 1990/1991...). Mais especificamente, uma foto que correu o mundo e comoveu meia humanidade: um menino iraquiano de uns 11 anos, que perdeu a família e o braço, por conta de uma das bombas de fragmentação dos americanos.
Quer dizer... todo mundo menos Fernanda Young, de acordo com relato do site do Centro de Mídia Independente (CMI): 

Fernanda Young, sempre ágil e expressiva, não perdeu tempo: dobrou os braços e, simulando ser maneta, começou a rir do garotinho, dizendo coisas como: "ah, aquele menino?". Depois, para mitigar um pouco a surpresa estampada nas caras das outras participantes e para não deixar o lado "polêmico" de lado (afinal, e como ela mesma diz, trata-se de uma "intelectual que lê Schopenhauer"), Fernanda começou a dizer que há uma grande "euforia" em torno dessa foto (creio que ela quis dizer que há um grande "alarde") e que, afinal de contas, há pessoas sofrendo em todos os lugares do mundo (sim, há pessoas sofrendo em todos os lugares do mundo, mas não vejo como isso pode tirar a importância da foto). 
Mas a 'escritora' não parou aí. No mesmo bloco em que tirou sarro do garotinho, ainda conseguiu dizer que o povo iraquiano mereceu o ataque americano, porque não passa de "um bando de velhos" e "machistas"
(N.R.: Como se os americanos – especialmente os eleitores de Donald Trump – não fossem machistas ao quadrado, né Fernandinha?) e que, além disso, estava "cagando para a Mesopotâmia". Com essa, Fernanda provou, definitivamente, que a ignorância e a burrice podem, sim, fazer uma pessoa tornar-se perversa e asquerosa. 
E, pela primeira vez na vida, assistir um programinha de TV me deixou de estômago embrulhado. Nenhum dos apresentadores do Cidade Alerta jamais conseguiu me chocar tanto quanto Fernanda 'Jovem' rindo do menino iraquiano. E, com o perdão da palavra, imagino que nem o adolescente mais escrotamente egoísta e chulo conseguiria ser tão insensível quanto ela.

Parêntesis: quando Fernanda falou que "afinal de contas, há pessoas sofrendo em todos os lugares do mundo", ainda lembrou que, aqui no Brasil, haviam muitas crianças abandonadas e ninguém fazia nada – como se a própria Fernanda tivesse feito alguma coisa... Isso não lhes lembra algo que apareceu quando a Suprema Corte dos EUA aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o território do país (e do qual já falei nesta séria série)?


Isso mesmo: a mesma hipocrisia (se Vossa Excelência me permitir o termo) escrota deste momento solene. Nenhum homofóbico sequer doou um centavo para combater a fome do mundo, mas trouxeram à baila o problema para absolver-se do fato de que são homofóbicos e de que são contra o casamento LGBT. Mas deixemos isso pra lá e fechemos o parêntesis.
Até porque, como se diz na minha terra: "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa".
Fernanda Young tem este hábito de falar antes de pensar, mas ninguém (nem mesmo eu ou Vossa Excelência) pode impedi-la de fazê-lo. Primeiro, porque a Constituição Federal é clara, em seu Artigo 5º, inciso IV: "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". E ela não faz diferenciação entre opiniões de pessoas que pensam antes de falar e as de outras que falam antes de pensar. Segundo, porque este princípio atende o que Voltaire disse certa vez, em meados do século XVIII: "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las".
Por fim, quando Fernanda Young diz o que quer dizer (pensando antes ou não) ela o faz botando o seu nome e a sua cara para bater, ao contrário de Hugo Leonardo de Oliveira Correa, de 37 anos – ele mesmo, o querelado deste processo que Vossa Excelência julgou – que se escondeu atrás de um perfil fake para ofender a querelante.
(Para quem não conhece a história: o tal Hugo Leonardo usou um perfil fake no Instagram para xingar Fernanda Young, entre outras "gentilezas", de "umazinha", "pau mole", "puta que te pariu", "viadinho" e "vadia lésbica". Para qualquer idiota misógino – querelado ou não – qualquer mulher livre em plena atividade criativa e livre para falar o que quiser é uma "vadia" – que, para ele, é sinônimo de "puta". O que implica em duas desinformações básicas do idiota.
A primeira: se a "ideia" foi comparar Fernanda Young a uma prostituta, é porque ele não sabe como é dura a vida do que muitos cretinos chamam de "moças-de-vida-fácil" - e a vida na prostituição pode ser tudo, menos fácil para as prostitutas.
A segunda: Fernanda é casada há uns bons 24 anos com Alexandre Machado, com quem tem quatro filhos – logo, "lésbica" ela não é. (Seria ela bissexual? Não sei, nem quero saber, pois a vida íntima de Fernanda não é da conta de ninguém, nem deste escriba.) E ainda que fosse lésbica: isso justificaria tamanha ofensa pessoal? Noves fora os evangelicuzinhos e bolsonaretes, desde quando uma mulher que ama outras mulheres é uma... como é que ele disse?... ah, sim... "vadia"?)
Só que perfis fakes não são tão seguros para caluniadores. Bastou um requerimento judicial às empresas operadoras das redes sociais para Fernanda achar o IP do jenio (assim mesmo, sr. revisor, obrigado) e leva-lo à justiça – não só para obter a reparação que a lei pode lhe conceder, mas também para revelar a verdadeira identidade do cretino agressor.
Dois anos depois, Vossa Excelência promulga a sentença. o tal Hugo Leonardo é condenado e deve pagar uma indenização a Fernanda Young... só que bem menor do que a querelante pediu: R$ 5 mil. Certo, sei que isso faz parte: muitas vezes, juízes como Vossa Excelência podem diminuir o valor da indenização pretendida, por achar que a ofensa não foi grande.
Infelizmente, não foi esta a razão apontada por Vossa Excelência, e sim... a moral da querelante Fernanda Young, como reza o texto abaixo, extraído de sua sentença (os grifos são meus):

A valor (SIC) leva em conta ainda o fato da autora ter artisticamente posado nua, de modo que sua reputação é mais elástica, inclusive porque se sujeitou a publicar fotografia fazendo sinal obsceno (...), publicou fotografia exibindo os seios (...) e não se limitou a defender-se, afirmando que terceiros seriam “burros” (...)
Ora, uma mulher com tantos predicados como a autora afirma possuir deveria demonstrar, porque formadora de opinião, uma pouco mais de respeito. Há valores morais que devem governar a sociedade e que, no mais das vezes, nos dias que correm, são ignorados em prestígio a uma pretensa relatividade aplicada às ciências sociais, geradora do caos atual.

Vamos ver se eu entendi bem o pensamento de Vossa Excelência. Quer dizer que o fato de Fernanda Young ter posado nua para a edição de novembro de 2009 da revista Playboy (na época, editada pela Editora Abril) desvaloriza a pessoa da querelante e a sua causa?

(Breve interrupção para uma palavrinha ao leitor. Quem quiser ver o ensaio com Fernanda Young, tem duas opções: ou procure num sebo, ou acesse um blog chamado Edson Zuando Tudo). Nele, você pode achar as fotos de todas as edições da Playboy brasileira até 2016 e – por enquanto – uma das Playboy sob nova direção – a cargo da PBB Entertainement – com o ensaio de Luana Piovani.)

Bem, Meritíssimo, como diria Jack, o Estripador, vamos por partes.
Primeiro, a visão de Vossa Excelência a respeito da moralidade de uma mulher a respeito de ensaios de nudez feminina. Será que não existem outras características que possam compor a moralidade de uma pessoa do que esta se mostrar nua ou não?
Para registro, os objetivos principais de tais ensaios de nu feminino são (óbvio ululante) a fruição erótica e (esta predominante) estética do corpo da mulher. Até porque a nudez feminina (e masculina também, sabia?) é objeto estético da arte há séculos.
Neste caso, o surgimento da revista Playboy, em 1953, significou um novo paradigma para a nudez feminina. Depois de seu surgimento (e de outras que vieram depois), arte e erotismo (que é coisa diferente de pornografia, se vossa Excelência não sabe...) tornaram se mídia de massa. Antes, ela se dividia entre a pornografia mais crua e a arte de vanguarda.
Não, não ofenderei Vossa Excelência com um exemplo de fotografia pornográfica dos séculos XIX e da primeira metade do século XX (até porque não procurei). Mas apresento-lhe um exemplo de arte de vanguarda a partir da nudez feminina: Le Violon d'Ingres, de Man Ray, com Kiki de Montparnasse.
(Curiosidade: a inspiração para esta foto experimental de vanguarda – dois efes – orifícios ou aberturas acústicas em forma de f que permitem aos sons amplificados pelo corpo do instrumento, atingir o espaço externo e finalmente os nossos ouvidos – desenhados no negativo da foto sobre o belo dorso de Kiki – vem desta expressão idiomática francesa: Le violon d’Ingres é uma ocupação ou hobby de um artista plástico em suas horas de ócio. No caso de Ingres (1780-1867), era tocar violino. Um dia, Kiki – modelo de diversos artistas plásticos e outras fotos de Man Ray – teve um arranca-rabo com ele, então seu amante, reclamando que ele não se importava com ela, que ele a considerava um violon d’Ingres – ou seja, uma mera distração para o tempo livre de Man Ray. Bastou isso para que o próprio Man Ray fizesse a foto. Fim do parêntesis.)

Le violon d'Ingres, Man Ray (1924 – Getty Museum)

Assim no chutômetro, Playboy publicou desde 1953 cerca de 2304 ensaios de mulheres nuas. Só na edição brasileira – então editada pela Editora Abril a partir de 1975, mas que só assumiu o nome Playboy a partir de 1978 – cortesia do falso moralismo do regime militar, que baniu a Playboy norteamericana do país em 1970 – e até lá publicou como Revista do Homem, ou simplesmente Homem – foram 1476 mulheres (modelos, atrizes, personalidades etc.) que posaram nuas para a revista. Fica a pergunta: SERÁ QUE A REPUTAÇÃO DE TODAS ESTAS MULHERES É "ELÁSTICA" (ou baixa, que é o que Vossa Excelência queria dizer) SÓ PORQUE POSARAM NUAS PARA A PLAYBOY?
E, repetindo: será que não existem outras características que possam compor a moralidade de uma pessoa do que esta se mostrar nua ou não?
Talvez pudesse resumir isso com a resposta de uma pessoa no facebook a uma"manchete indignada" (assim mesmo, sr. revisor, entre aspas, obrigado) de um site de "notícias" (assim mesmo etc., obrigado) meio que extremo-direitista (e meio covarde também, já que não traz o expediente comseus redatores – por que será?) chamado NoticiasRJ, que fala de uma performance ocorrida no pátio externo do Museu de Arte Contemporânea (MAC), de Niterói (RJ), nodia 18 de junho: de surpresa, estudantes de Artes da Universidade FederalFluminense (UFF) fizeram a tal performance, que consistia na depilação de umajovem na frente dos frequentadores do MAC... nua. Não foi necessariamente foi uma defesa da performance (e convenhamos, eu, este facebookiano e, se bobear, as torcidas do Flamengo e do Corinthians não acharam uma ideia tão original assim), mas da própria nudez, porque a"manchete" estava indignada pela nudez em si.

Isso está longe de ser a manifestação artística mais bonita que já vi na vida. Longe mesmo. Mas:

- Nudez é arte desde os tempos mais primórdios 
- O museu é de arte contemporânea. Quer ver arte renascentista, neoclássica ou barroca, vai pra outro museu
- "Isso não é arte".
Quem define o que é arte e o que não é? Eu? Você? E se for arte, sim? Um mictório no meio de uma galeria é arte?
- "Tinha criança no local"
E criança precisa ser protegida de nudez desde quando?
- "Atentado ao pudor"
Olha, tem gente que acha que mãe amamentando em público é atentado ao pudor. O que é pudor? Por que um homem sem camisa na praia não atenta contra o pudor?
- "Mas ela estava pe-la-da".
Sim, já viu estudante de arte desenhando nu artístico? Uma mulher pelada numa salinha sendo desenhada por um monte de gente. Esculturas de gente pelada em todos os grandes museus do mundo, pirocas e tals. E daí?
- Ela não estava simulando sexo. Não estava fazendo nada violento. Ou você acha depilação violenta? Se você acha depilação um troço violento (está no seu direito), então vamos discutir a violência contra a mulher.
- "Mas tinha que estar depilando?"
É. Já vi performances esteticamente mais interessantes. Mas ela não matou animais, não infringiu liberdades alheias e a gente está aqui discutindo a performance dela. A arte cumpriu seu papel de provocar questionamentos. Só por isso, achei digno.
- "Mas e as crianças? Como vou explicar pro meu filho?"
Explica 50 pessoas mortas numa boate gay. Explica criança morando na rua. Isso aí é muito mais simples: "é performance artística, filho. Quando você virar estudante de produção cultural, você vai entender".

O que nos leva da performance no pátio do MAC ao sinal ofensivo de Fernanda Young no ensaio para a Playboy.
Pense bem. Vossa Excelência realmente se ofendeu com tal sinal? Leia o que vou escrever e depois pense bem.
Pra começar, se Vossa Excelência expedir mandados de prisão ou sentenças condenatórias para cada cidadão brasileiro que levantar o pai-de-todos para alguém (ou algo) que lhe desagrada (ou solta um palavrão idem pela mesma razão) em seu duríssimo cotidiano – sem ser, claro, na honrada sala de uma corte de justiça como a sua – desconfio que 95% da população brasileira (especialmente os três Ps – preto, pobre e as moças-da-difícil-vida-fácil) acabarão enchendo prisões de tamanho equivalente (de novo, no chutômetro...) a 100.000 Maracanãs... (Claro que os 1% da população que possuem mais de 50% da renda nacional e, pelo visto, uma certa imunidade perante a justiça que Vossa Excelência representa... bem, como diria o paladino Sergio Moro, isso não vem o caso...)
Isso porque quando alguém levanta o pai-de-todos para alguém (ou algo), ou o manda para as cinco-letras-que-cheiram-mal (ou, como um ilustre jornalista fez com um certo líder religioso, manda procurar um certo pássaro...) não é por boniteza, mas por precisão de desabafar fortes sentimentos de desagrado e raiva que não podem ser refreados, sob pena de se sentir mal por engolir sapos. No caso do pai-de-todos de Fernanda Young – além da velha mania da moça de fazer antes de pensar (variação do velho falar-antes-de-pensar...) – pode ser um desabafo contra a hipocrisia. Mas isso pode ser discutível. O que não se pode é rebaixar a moral de alguém por desabafos feitos por palavras e gestos ofensivos. Ou será que Vossa Excelência, em nenhum momento fora do tribunal (em casa, por exemplo) nunca mandou alguém para a chamada ponte que partiu em algum momento de raiva?

Aliás, até mesmo em momentos de alegria...
(© Falseknees.com - 2017)

Quanto à relatividade... bem, não quero ser chato, Excelência, mas a relatividade (de leis e valores morais) é inerente à civilização humana. Até mesmo na ciência – Albert Einstein que o diga...
Vejamos as leis. Os princípios do Corpus Juris Civilis podem não mudar, mas a lei, por tabela, é consuetudinária – muda de acordo com os costumes, as mudanças de pensamento e de aspirações da sociedade. Leis do século XV, por exemplo, não se aplicam no século XXI. Outro exemplo: durante quatro séculos, foi perfeitamente legal, de acordo com a lei, que seres humanos tivessem como propriedade... outros seres humanos. Sim, Excelência, estou falando da escravidão. No fundo, a sociedade nunca aceitou (CQD os quilombos, como de Palmares e seu líder Zumbi...) Até que um dia, a sociedade não quis mais a escravidão, e veio a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. (Lei esta que certas parcelas boçais da elite brasileira sonham em revoga-la... mas como diria seu colega Sergio Moro... isso não vem ao caso...)
Da mesma forma, isso ocorre com os valores morais. Certo, há valores morais que não mudam, como o respeito ao outro, por exemplo. Mas fora estes valores morais que são imutáveis, os outros também são relativos e também mudam de acordo com os costumes, as mudanças de pensamento e de aspirações da sociedade..
E já que supunhetamos no assunto (© Aldir Blanc...) Fernanda Young, vejamos alguns valores morais referentes às mulheres. Houve tempo em que não se deixavam as mulheres frequentarem escolas (por muito favor, deveriam saber só ler e escrever para anotar receitas culinárias, e olhe lá...); houve tempo em que mulheres não podiam cursar universidades (e hoje, Vossa Excelência tem colegas mulheres presidindo tribunais – Carmen Lúcia, ministra do STF, que o diga...); e houve um tempo em que mulheres não podiam votar e ser votadas para cargos políticos – talvez por influência de babaquices extraídas da mitologia grega:

Segundo Marco Terêncio Varrão, citado por Agostinho de Hipona, as mulheres da Ática tinham o direito ao voto na época do rei Cécrope I. Quando este rei fundou uma cidade, nela brotaram uma oliveira e uma fonte de água. O rei perguntou ao oráculo de Delfos o que isso queria dizer, e resposta é que a oliveira significava Minerva e a fonte de água Netuno, e que os cidadãos deveriam escolher entre os dois qual seria o nome da cidade. Todos os cidadãos foram convocados a votar, homens e mulheres; os homens votaram em Netuno, as mulheres em Minerva, e Minerva (em grego, Atena) venceu por um voto. Netuno ficou irritado, e atacou a cidade com as ondas. Para apaziguar o deus (que Agostinho chama de demônio), as mulheres de Atenas aceitaram três castigos: que elas perderiam o direito ao voto, que nenhum filho teria o nome da mãe e que ninguém as chamaria de atenienses.

(Machista, esse Netuno... Vossa Excelência não acha?)
E, mesmo assim, pouco a pouco, elas conquistaram esse direito – começando pela Nova Zelândia, em 1893. Depois, vieram a Austrália (1902), Finlândia (1906), Grã-Bretanha (1918), Canadá (voto em 1918, direito de se candidatarem a partir de 1920), Alemanha (1919), Estados Unidos (1920), Equador (1929),  Brasil (1933), França e Itália (1945), Argentina (1951), Suíça (1971)...
Tudo isso demorou por uma razão: a visão que uma sociedade tinha (e ainda hoje tem, em países teocráticos ou quase) de que lugar de mulher é em casa, cuidando do marido e dos filhos.
Pior: ainda há cretinos que não só acham isso, como também acham que tem de ser assim, porque "Homem não foi feito para atividades de casa", como disse certa vez, em entrevista ao HuffPost, o deputado Hidekazu Takayama, coordenador da bancada evangelicuzinha no Congresso Nacional – aliás, cretiníssimo personagem já conhecido desta séria série (http://sombraseletricas.blogspot.com.br/2016/02/da-seria-serie-filmes-que-jair.html).
Tão cretino, aliás, que levou uma merecida bronca... de um homem.


DGA - Ô Hidekazu Takayama, vai lavar uma louça!
(Canal Maestro Bogs - YouTube)

Outro exemplo, ainda em termos de valores morais em torno da mulher.
Até pouco tempo, era considerado um valor moral masculino o direito de matar a sua esposa, namorada ou companheira, caso ele desconfiasse que estava sendo traído. Ora, isso é assassinato – artigo 121 do Código Penal. Mas há um parágrafo que sempre abriu uma brecha neste crime grave:

§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço.

E, muitas vezes, nobres colegas seus até absolviam o assassino.
Até que aconteceu o caso Ângela Diniz. Vossa Excelência deve se lembrar dele. Em 30 de dezembro de 1976, Ângela foi assassinada por seu namorado Raul Fernandes do Amaral Street, o Doca. Motivo: ciúmes. Em seu primeiro julgamento, Doca declarou que a amava, mas ficou amargurado e indignado com uma proposta de "dividi-la com outros homens e mulheres" e a matou por ciúmes. A desculpa colou, e o júri o condenou a dois anos com sursis (suspensão condicional da pena) – ou seja, ele sairia livre. Sairia, não fosse a indignação de outras mulheres (principalmente de movimentos feministas), que adotaram o slogan: "Quem ama, não mata". (E, claro, lembraram que o "honrado" Doca Street vivia às custas de Ângela Diniz.) Somado ao recurso do promotor, Doca foi julgado de novo em 1981, e condenado a 15 anos de prisão.
A partir daí – e da Lei nº 13.104, de 2015, que caracterizou o feminicídio – matar mulher deixou de ser in. Certo, mulheres continuam sendo assassinadas no país, mas (com raríssimas exceções) juízes como Vossa Excelência nunca mais absolveram maridos, namorados e companheiros assassinos.
Note Vossa Excelência que todas estas ideias que hoje são merecidamente consideradas de jerico – mulher ser obrigada a ficar em casa cuidando só das tarefas domésticas, mulher ser morta pelo marido-namorado-companheiro, mulher sem direitos civis etc. – originam-se de um conceito muito chato simbolizado em uma palavra: misoginia.
Vejamos o que diz o pai-dos-burros:

Misoginia (do grego μισέω, transl. miseó, "ódio"; e γυνὴ, gyné, "mulher")
substantivo feminino
1. ódio ou aversão às mulheres; ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres ou meninas.
2. aversão ao contato sexual com as mulheres.

E, de acordo com o verbete da palavra na Wikipedia:

A misoginia pode se manifestar de várias maneiras, incluindo a exclusão social, a discriminação sexual, hostilidade, androcentrismo, o patriarcado, ideias de privilégio masculino, a depreciação das mulheres, violência contra as mulheres e objetificação sexual

Androcentrismo? Se Vossa Excelência me perdoar, WTF? 
Outro verbete na Wikipedia nos explica o que é isso: "Androcentrismo é um termo cunhado pelo sociólogo americano Lester F. Ward em 1903. Está intimamente ligado à noção de patriarcado. Entretanto, não se refere apenas ao privilégio dos homens, mas também à forma com a qual as experiências masculinas são consideradas como as experiências de todos os seres humanos e tidas como uma norma universal, tanto para homens quanto para mulheres, sem dar o reconhecimento completo e igualitário à sabedoria e experiência feminina."
O que nos leva de volta ao caso Hugo Leonardo de Oliveira Correa. Quando o "valente" querelado usou um perfil fake para chamar Fernanda Young de "vadia lésbica", ele achou que podia exercer o "direito" (assim mesmo, sr. revisor, entre aspas de novo, obrigado) de ser misógino. Só esqueceu de pensar nas consequências – especialmente perante a lei que Vossa Excelência defende.
Sim, é direito de Vossa Excelência promulgar a sentença que achar justa ao caso, mesmo achando que esta sentença foi muito baixa para um covarde.
E sim, é direito de Vossa Excelência se identificar (nem que seja um pouquinho) com os réus ou querelados de cada caso, dependendo da questão – muito embora seja difícil encontrar juízes que se identifiquem com réus pobres que furtam alimentos em supermercados para comer: antes nobres colegas seus absolviam tais réus ou lhes aplicava penas bem brandas (tão brandas como as que o tal Hugo Leonardo de Oliveira Correa mereceu de Vossa Excelência); hoje, são penas bem pesadas, "pra essa gente aprender" (SIC).
O problema é: por que cargas d'água Vossa Excelência se identificou com a misoginia e com as ofensas morais proferidas por tal querelante? E por que acoplar em sentença tão branda uma "lição de moral" do século retrasado, baseada em valores morais tão arcaicos como um pelourinho dos tempos da escravidão, que nem o mais conservador cidadão deste século acataria?
Por que se identificar com o ódio e nojo de um homem para com mulheres, especialmente as que se empoderam? Será que ambos foram gerados em úteros artificiais, sem participação feminina? (Aliás, a ofensa do querelado doeu muito em Fernanda Young, mas doeu muito mais nas filhas dela. Sabia, Meritíssimo?)
Em suma: seria bem mais honesto da parte de Vossa Excelência declarar-se impedido de julgar tal caso por razões pessoais, transferindo-o para outro nobre colega. Ao não fazê-lo e ao proferir suas considerações pessoais, Vossa Excelência mostrou-se um magistrado bem preparado... para a justiça dos séculos XIII, XIV, XV, XVI, XVII, XVIII... Quiçá, talvez, para um tribunal chamado Santa Inquisição, que costumava mandar mulheres decididas para a fogueira, sob a acusação de bruxaria.
Também seria bem mais honesto da parte de Vossa Excelência (embora mais injusto) absolver o querelado. Do jeito que está a sentença, Vossa Excelência não puniu o tal Hugo Leonardo pelas ofensas que ele fez: o senhor acabou se juntando às ofensas morais proferidas por ele, por misoginia e moralismo exacerbado.
Sem mais, para o momento...


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E agora, a nossa indicação de filme para esta séria série: Ronda noturna (Ronda nocturna - Argentina, 2005), de Eduardo Cozarinsky (13º Mix Brasil, 2005).
O filme acompanha a jornada de Victor (Gonzalo Heredia), michê e traficante, pela noite de Buenos Aires, vagando pelas ruas da cidade e encontrando outros personagens da noite (michês, travestis, um ex-michê), vai a saunas, interage com moradores de rua, miseráveis, notívagos, etc, até o amanhecer, quando toma o rumo de casa, quase como se estivesse em um documentário.

A medida que a noite vai passando, parece que ele vai ficando mais solitário, e o filme mais melancólico, principalmente quando Victor relembra fatos de seu passado.
Deem uma olhadinha no trailer.